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Coisas de Gajas e Gajos

por jl, em 04.09.17

emoji.jpgBoas.

Depois de um dia de descanso aqui do artigo que aqui vou escrevendo, aqui estou novamente a falar de coisas (que como se dizia antigamente) de Gajas. Mas em 2017 é também de Gajos. Vamos lá então:

“Tens um tampão?” Esta é uma pergunta que se faz em voz baixa, ou ao ouvido, com o ar comprometido de quem está a pedir à colega de trabalho uma arma de fogo ou uma droga pesada. Mas bata andar num Hipermercado para ver que o corredor onde estão os tampões ou os pensos higiénicos são zonas em que se bate recordes de velocidade, porque parece que a maioria das pessoas tem vergonha de aí andar.

Segundo um estudo revelado recentemente, contudo, o professor de saúde reprodutiva da University College London, John Guillebaud afirma que as dores do período podem ser tão severas “como as de um ataque cardíaco”. “Os homens não conseguem perceber isso e não se tem dado a esta questão a importância que se devia dar. Acredito mesmo que é algo que se devia encarar a sério, como qualquer outra questão médica.”

O tabu que permanece, a vergonha que faz com que as mulheres continuem a tentar esconder que estão com o período e a infantilização social das capacidades dos homens para lidarem com o tema, faz com que se verifique uma lenta e invulgar evolução médica neste campo. “A menstruação é apresentada como um ‘problema de mulheres’, e é enquadrada como uma dor natural, quase mística e sagrada”, completa Fenton. E isto em 2017!

O desinteresse científico ajuda também a que se criem mitos que podem ter consequências laborais: como a ideia de que o período e as hormonas têm consequências no cérebro da mulher que prejudicam o seu rendimento cognitivo, desmentida num estudo da Universidade de Zurique apresentado recentemente no The Guardian; ou, em sentido contrário, que fazem com que só agora, e apenas em Itália, se comece a falar na Europa sobre o enquadramento legal das dores do período enquanto motivo para pedir um ou dois dias de baixa médica no trabalho. O estar a ler e a falar do Período faz-me lembrar também da Menopausa, que é outro aspecto da vida das Mulheres que parece que só a cada uma diz respeito.

O mesmo desinteresse tem também consequências no conforto diário, e na evolução quase nula das opções que as mulheres encontram para os dias em que estão com o período: pensos, tampões e, mais recentemente, os copos menstruais, são melhores do que toalhas ou folhas (aquilo a que, em várias crises humanitárias, campos de refugiados e sítios isolados se regista que as mulheres têm de recorrer), mas pouco mudaram nos últimos 20 anos. Uma deficiência no mercado detectada pela associação catalã Femmefleur, que criou entretanto as Cocoro – umas simples cuecas com um tecido especial que absorve o período e que podem ser lavadas na máquina, e que só começaram a ser vendidas este ano – e espera que mais pessoas comecem a tomar a iniciativa de criar alternativas mais eficientes.

“Tens um tampão ou um penso?” Esta é uma pergunta que se faz em voz baixa, ou ao ouvido, com o ar comprometido de quem está a pedir à colega de trabalho uma arma de fogo ou uma droga pesada. Já todas as mulheres adultas passaram por isso, num dia em que se esqueceram dos tampões ou dos pensos em casa e foram surpreendidas pelo período. A vergonha é também o sentimento que a maioria das mulheres associa à história do dia em que teve o primeiro período, além de haver estatísticas que mostram que muitas mulheres em idade escolar optam por ficar em casa quando estão menstruadas.

E é precisamente por aí que muitos acreditam que deve começar o combate contra o tabu.

Na sequência do já referido estudo conduzido pela Plan International, as mesmas mulheres que disseram que se sentiam incomodadas a falar do período em público, mostraram abertura (cerca de 50 por cento) para usar um emoji (os famosos bonecos das mensagens dos telemóveis e computadores) sobre o período – caso existisse um. E foi assim que nasceu a campanha para criar um emoji que facilite a evolução da comunicação em relação a este tema, já que 92 por cento da população online usa esses símbolos nas suas conversas diárias.

Se há unicórnios, cocós sorridentes e alguns emojis que ninguém consegue sequer definir (ou explicar para que servem que hoje m dia parece que são a mioria), e há mais de mil opções de desenhos, a Plan International acha que também pode haver um útero, um penso ou umas cuecas manchadas, umas gotas de sangue e um calendário menstrual.

Todas as opções foram a votos nas redes sociais da plataforma e já há uma vencedora: as cuecas com duas gotas de sangue desenhadas. O próximo passo é apresentar a proposta à Unicode, o consórcio que vai decidir que desenhos farão parte do teclado global de emojis em 2018, e esperar que se torne uma opção real.

Há outras campanhas de origem privada a quererem contribuir para este debate em torno da menstruação, algumas mais criativas do que outras. É o caso do Period Game, por exemplo, um jogo de tabuleiro que tem uns ovários rotativos que soltam peças vermelhas ou brancas – tem mais sorte quem recebe uma peça vermelha, porque significa que está com o período.

E há empresas que começam, por iniciativa individual, a ter o período em conta na hora de estabelecer direitos para os seus trabalhadores, como a Nike, que instaurou uma baixa menstrual. Mas, ainda assim, os especialistas querem que a luta contra o tabu menstrual dependa menos da rotação de dados e mais da vontade médica e política, até porque as mulheres vão continuar a passar por isso: todos os meses, por todo o mundo, e durante muitos anos da sua vida.

Sinceramente não sei se este artigo poderá ajudar alguém a falar mais abertamente sobre isto, mas a mim ajudou-me a ser mais aberto no que diz respeito ao Período.

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publicado às 17:00



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